O porquê
A Genealogia sempre foi considerada um hobby aristocrático. Quando eu, adolescente, me interessei pelo assunto, pouca gente ou quase ninguém tinha nenhum interesse, particularmente dentro do círculo familiar com quem eu tinha contato. O que me aproximou muito de vovô Antônio Torres, além do gosto comum pelos livros de Agatha Christie, foi esse interesse das origens familiares e me aproveitei das lembranças dele, que foram muito úteis às minhas pesquisas. Mas voltando ao aristocratismo da Genealogia, a palavra "nobre" tem a mesma origem etimológica da palavra latina "noscere", conhecer. Então, originalmente, o que distinguia o nobre do não nobre, no mundo Romano, era o conhecimento das origens, dos ancestrais. Esse conhecimento, em última análise, empoderava, para usar um termo muito em voga, as famílias que o possuíam.
Com as ferramentas e os conhecimentos que temos hoje, mesmo as famílias que não têm origem nobre podem conhecer suas origens e, principalmente, saber que têm origens, que não "nasceram na bosta de boi", como se diz em Minas. Esse empoderamento conferido pelo conhecimento das origens familiares, parece-me, é tão obviamente importante que, dizem, uma das primeiras medidas tomadas por Ruy Barbosa quando da extinção da escravidão foi a eliminação pura e simples da documentação referente às origens africanas e aos nascimentos das primeiras gerações de escravos no Brasil. A impossibilidade de saber de onde se vinha, quem haviam sido os senhores de escravos que exploraram a mão-de-obra de seus ancestrais impede que os negros brasileiros possam se movimentar no sentido de exigirem reparações históricas, algo que está acontecendo nas ex-colônias inglesas e francesas do Caribe.
Mas tem crescido muito o interesse pelas origens de muitas famílias que, como acho ser o caso da minha, ascenderam à classe média e, livres das urgências de trabalhar para ter o que comer e onde dormir, querem, de forma muito natural, saber quem são, de onde vieram e, muitas vezes, descobrem fascinados que têm, afinal, uma história. Se enobrecem, ainda que metaforicamente, por passarem a conhecer suas origens e, no sentido junguiano, se individuam, deixam de ser massa anônima. Se apropriam, na verdade, do que não é mais privilégio apenas de aristocratas. Acho isso muito importante porque acredito que esse conhecimento da história familiar nos confere capital cultural, nos enriquece a todos.
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